Controle de risco

O controle de risco, ou gerenciamento de risco, é composto basicamente dos seguintes pontos:

  1. Stop loss
  2. Diversificação
  3. Risco financeiro por operação
  4. Position sizing

Vamos falar sobre cada ponto:

 

1) Stop loss

Já falamos da importância do uso do stop na nossa estratégia na seção anterior Proteção do capital. Caso não tenha lido, é importante voltar para ler.

Cada ação que eu compro, imediatamente em seguida eu já coloco a ordem de stop no home broker. Assim que deve ser, não esperar o que vai acontecer nos próximos minutos ou dias. O valor do stop já tem que estar definido antes da compra, no momento do estudo das possíveis entradas.

Os pontos de entradas e saídas serão vistos em uma seção mais a frente.

 

2) Diversificação

Todos já ouvimos aquele velho clichê: “Não devemos colocar todos os ovos na mesma cesta”. Na bolsa de valores isso é mais importante ainda. Se tratando de um investimento de renda variável de alta volatilidade, usar todo nosso patrimônio para comprar uma ação somente pode ser extremamente arriscado.

A idéia da diversificação é pulverizar o risco, e obviamente o lucro também. Exemplo: se eu tivesse somente uma ação com todo meu capital e esta caísse 10%, eu perderia 10% do capital. Agora, se eu tivesse 10 ações e uma delas caísse 10%, perderia somente 1%. O lado ruim disso é que se tivesse 10 ações e uma ação e subisse 50%, ganharia somente 5%, ao invés de 50% se tivesse somente ela, porém como disse na seção anterior, o mais importante na renda variável é proteger o capital, diminuir o risco.

Apesar de ser uma desvantagem esse exemplo de lucro, há uma vantagem também em diversificar: temos mais chances de acertar uma ou mais ações que vão fazer um forte movimento de subida, a ponto que se tivermos uma ação somente, dependemos somente dela.

Não há um número perfeito de quantidade de ações para diversificar. Ter uma quantidade muito grande, como 50 ações, dificulta o gerenciamento e aumenta as chances de perdermos oportunidades ou fazermos alguma operação errada. Acertar uma bela ação com um tremendo lucro, será mega diluído e causará frustração. Ter 1 ou 2 ações também é muito pouco.

Depende do capital disponível para investir também, se a pessoa tiver R$ 5 mil na corretora, não dá pra ter 10 ações diferentes. Com capital reduzido, eu sugeriria uma diversificação pequena, até ir conseguindo aumentar com o tempo, começando com 2 a 3 ações na medida do possível. Se a pessoa tiver menos dinheiro ainda, provavelmente conseguirá comprar somente uma ação, mas está bom no momento. Há a possibilidade de comprar ações no mercado fracionário, porém deve ser avaliado o spread e custos, que podem variar bem em relação ao mercado a vista.

Essa pergunta “Qual o capital mínimo para começar a investir em ações?” é bem comum, portanto eu escrevi esse artigo para falar mais sobre o tema.

Tendo um capital razoável, eu sugeriria diversificar entre 6 e 12 ações, dependendo das condições do mercado e comportamento das ações.

Uma diversificação menor é interessante quando compramos alguma ação que está em forte tendência de alta e esse movimento permanece semana após semana. Nesse caso é interessante fazermos novas entradas na mesma ação para aproveitar essa valorização, ao invés de diversificar com outras ações não tão fortes. Esse assunto será tratado em mais detalhes mais a frente no tema de “Piramidar entradas”.

Há um estudo feito por Lawrence Fisher e James H. Lorie em 1970, chamado “Some Studies of Variability of Returns on Investments In Common Stocks” (“Alguns estudos sobre a variabilidade dos retornos dos investimentos em ações ordinárias”) que mostra que diversificando mais que 10 ativos diferentes, o risco não diminui mais proporcionalmente como ocorre até 10 ativos. Segue o gráfico do estudo, mostrando o risco total da carteira como função do número de ações:

Outra questão é a diversificação setorial. É importante diversificar não somente as ações mas também os setores que elas pertencem. Não é interessante comprar 10 ações do mesmo setor porque se ocorrer algum problema no setor em si, devido a economia, importação, exportação, por ex., toda a carteira de ações tende a sofrer perdas simultaneamente. Pode-se pensar em torno de no máximo 1/3 do capital em um mesmo setor. Obviamente se um setor estiver muito forte no momento vamos querer aproveitar e concentrar um pouco mais nas ações desse segmento, afinal não é sempre que tem várias ações em fortes tendências. Então se não houverem outras ações tão interessantes talvez o trader queira investir uns 50% do capital no mesmo setor em destaque, em 3 diferentes ações por ex.

 

3) Risco financeiro por operação

É necessário definir um limite de risco financeiro por operação. Isso quer dizer quanto em reais pode ser perdido se a operação der errado, ou seja, se o stop loss for atingido. Esse limite serve para não perdermos muito dinheiro com uma única ação, portanto um importante item do controle de risco.

Obviamente o valor financeiro a arriscar por operação vai depender de quanto dinheiro eu tenho na corretora disponível para a compra de ações. Portanto não pode ser um valor fixo em reais, mas sim um valor percentual do meu capital total.

Muitos autores recomendam que em CADA operação não devemos arriscar mais do que 2% do nosso capital total disponível na bolsa. Outra regra é que na soma de todas as operações que possuo em aberto, NUNCA arriscar mais que 6% do meu capital total. Isso significa que eu poderia ter 3 operações em aberto que ainda estão em risco de perda, cada uma com 2% de risco, totalizando o limite de 6% total somados.

Eu sou mais conservador e também gosto de diversificar mais, então eu acabo usando um percentual de risco menor. Eu uso um risco de 1% do meu capital para cada operação. Dependendo da situação do mercado ou do ativo eu uso risco de 0,5%.

Exemplo: Se possuo um capital de R$ 50.000, poderei arriscar no máximo R$ 500 por operação (1%), e no máximo R$ 3.000 somando todas minhas operações em aberto (6%). Se fizer 6 operações, terei um risco de 1% em cada uma delas, e 6% no total.

Neste caso não poderei comprar mais nenhuma ação até que uma delas suba, fazendo com que meu stop suba também e este fique acima do meu ponto de compra, ou seja, se eu for stopado terei lucro. Quando uma ação sair da zona de prejuizo, a risco total da minha carteira será de 5%, então estarei apto a comprar mais 1 ação, para que o risco volte a ficar em 6%. Se nesse meio tempo outra ação minha sair da zona de prejuizo, o meu risco total baixará para 4%, portanto poderei comprar mais 2 ações.

Quando estamos começando a montar nossa carteira de ações, é normal atingir esse risco total de 6%. Porém com o passar do tempo, à medida que as ações forem saindo da zona de prejuizo e meu capital estiver todo alocação nas ações, em determinado momento meu risco total será inferior a 6%, por exemplo 2% ou 3%, ou seja, somente 2 ou 3 ações ainda em risco de prejuizo. E se tudo continuar indo bem, em algum momento posso ter toda minha carteira livre de risco, considerando o investimento inicial em cada uma delas.

Obviamente aqui estamos tratando do risco controlável. Podem haver situações muito atípicas no mercado onde há uma queda de preços abrupta e muito forte na abertura do mercado, onde o preço negociado é abaixo do nosso stop, portanto nosso prejuizo pode ser maior que o 1% do capital definido inicialmente. Essas situções acontecem mas são raras.

Resumindo:

  • 1% de risco por operação
  • 6% de risco total

 

4) Position Sizing

Uma pergunta extremamente importante a ser feita ANTES de comprar uma ação é: “Quantas ações comprarei?”. A análise feita para responder essa pergunta se chama “Position Sizing”.

Há várias técnicas de Position Sizing para determinar a quantidade exata usando sempre alguma medida de risco no cálculo.

Eu uso uma forma muito simples e muito utilizada no mercado que se chama “Risco Percentual do Capital”. Parece familiar? Sim! Esse modelo é totalmente atrelado ao explicado no item 3.

Para definir a quantidade de ações a comprar eu necessito de 4 informações:

  • Preço de compra
  • Preço do stop loss
  • Risco percentual por trade
  • Capital total atual

Vejamos um exemplo de como será determinado quantas ações comprarei:

Ação: XYZZ4
Capital total: R$ 50.000
Risco por trade: 1%
Preço compra: R$ 44,01
Preço stop: R$ 41,74

Passo 1

Calcular o risco financeiro por operação.

Para isso multiplica-se o risco por trade pelo capital total. No exemplo:

1,0% x R$ 50.000 = R$ 500

Ou seja, posso arriscar no máximo R$ 500 por operação.

Passo 2

Calcular o prejuizo máximo da operação por ação.

O cálculo é subtrair o preço do stop do preço de compra. No exemplo:

Preço compra – Preço stop = R$ 44,01 – R$ 41,74 = R$ 2,27

Isso significa que se a operação der errada eu vou perder R$ 2,27 por ação.

Passo 3

Calcular a quantidade de ações para comprar.

Por fim, para determinarmos a quantidade de ações que estarei apto a comprar pelo meu controle de risco, basta dividir risco financeiro por operação (passo 1) pelo prejuizo máximo por ação (passo 2). No exemplo:

R$ 500 / R$ 2,27 = 220,26

O resultado dá um valor aproximado de 220,26 ações. Ou seja, eu estou apto a comprar 220 ações. Como no mercado a vista os lotes para compra de ações são múltiplos de 100, comprarei 200 ações XYZZ4. O arredondamento será SEMPRE para baixo, nunca para cima, senão não estarei cumprindo minha gestão de risco.

A conta é simples, basta colocar todas as variáveis em uma planilha que o cálculo fica bem rápido. Fazendo dessa forma deixamos a escolha da quantidade de ações de modo racional e sistemático, não deixando o emocional ou o calor do momento dar opiniões ou tomar decisões.

É importante ressaltar que quando falo em capital total, é a soma de todo dinheiro disponível livre na corretora mais a soma do valor atual de todas ações que tem em carteira. Ou seja, será um valor dinâmico que deve ser atualizado na planilha mensalmente ou semanalmente para um cálculo adequado de tamanho posição.

 

Clique aqui para continuar para “Mentalidade”.

Abraços a todos,

Rodrigo Sibin Lichti

  1. Eliseu Dias
    15 de abril de 2018 às 7:05

    Rodrigo…só hoje tomei conhecimento deste blog!
    Gostaria de agradecer pela iniciativa de compartilhar sua experiência e conhecimento!
    Conteúdo muito bom…Gratidão!
    Bons trades e evolução sempre!

    • 15 de abril de 2018 às 10:18

      Olá Eliseu! Que bom que o blog está sendo útil para seus estudos!
      Obrigado pelo comentário!
      Abração!

  2. Paulo Vinícius Sales
    6 de fevereiro de 2019 às 9:14

    Bom dia Rodrigo. Estou gostando muito do seu blog.
    Mas não entendi uma coisa. Como você define o preço o stop loss?

    • 6 de fevereiro de 2019 às 11:37

      Bom dia Paulo! Obrigado pelo comentário! Seja bem vindo.
      Continue lendo as páginas da Estratégia na ordem, clicando no link no fim de cada texto para ir para a próxima, a definição do stop inicial e móvel estará na última. Mas é importante ler todas as outras também, ok? Se tiver dúvidas depois volte a escrever.
      Abraços!

  3. 12 de novembro de 2019 às 7:30

    Bom dia Rodrigo!

    Quando vc diz 1% do patrimônio é para todas as operações somadas?

    Se vou entrar em xyzz3 e xyxx3 o total das duas operações devem estar dentro deste valor de risco. Ou seja, poderia comprar no máximo R$ 500,00 somando os dois papéis.

    É isso? Se for, acaba ficando inviável para quem tem pouco né?

    • 12 de novembro de 2019 às 9:20

      Bom dia Baptista!

      1% do patrimônio é o risco por operação, no caso se for R$ 50 mil, arriscarei R$500 em cada operação. Se eu comprar 4 ações, estarei arriscando R$ 2 mil, ou seja, 4% do patrimônio total em bolsa.

      O risco é de R$500, pra determinar a quantidade de ações a comprar precisa fazer a conta conforme detalhei no texto acima. Ou seja, R$500 é o risco e não o valor de ações que vou comprar.

      Se o capital for R$ 10 mil, o risco por operação será de R$100. Sempre 1% do que a pessoa tiver na conta da corretora.

      Depende quanto capital é pouco. Conforme descrevi no terceiro parágrafo, quem tem menos capital realmente não vai conseguir diversificar muito. Se o pouco for R$ 1 mil ou R$ 2 mil, provavelmente terá que comprar no mercado fracionário. Mas mesmo com pouca diversificação, o ideal é que não exponha muito o capital em risco. É tentar arriscar no máximo 2% do capital por operação, nunca passar disso.

      Abraços!

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